O que vivemos nos dias 8 e 9 de janeiro

Descrevemos aqui a nossa experiência pessoal, daquilo que vevimos e sentimos nesses dias que marcaram profundamente as nossas vidas.

8 de janeiro - O dia sem fim

Depois dos acontecimentos em Brasília, milhares de pessoas — entre elas idosos, mulheres e crianças — permaneceram em frente ao Quartel. Muitos acreditavam que seriam ouvidos e que estavam apenas exercendo o direito de se manifestar pacificamente pelo que acretimos e queremos para nossas famílias e pra nação Brasileira. Mas infelizmente só começando o nosso pesadelo.


Ao amanhecer do domingo (9 de janeiro), acordamos todos cercados pelos militares, que estavam todos em formação de combate, com seus escudos e cacetetes, também com cães polícias. No começo, pensavamos que era para nós protege, mas na verdade era ao contrário, foi então que a nossa ficha caiu, que eles tinham nos traídos, aqueles que eram para nós protege estavam contra nós. Então fomos informados pelos militares, que deveríamos entrar nos ônibus, pois seríamos levados  para a rodoviária, e foi nisso acreditamos. Em nenhum momento nos disseram que estávamos sendo presos. Então entramos no ônibus determinado pelo militares não havia opção de escolha.

Depois que os veículos começaram a se movimentar, percebemos, com um aperto no peito, que não estávamos indo para rodoviária. Rodamos por horas pelas ruas de Brasília, sem qualquer explicação, enquanto a angústia só aumentava a cada curva.


Quando finalmente os ônibus pararam, estávamos diante de um local que lembrava um quartel ou área militar. Ficamos ali, por horas trancados dentro dos veículos, sem permissão para sair, sem água e sem alimentação, sem o direito de ir ao banheiro, em um calor insuportável uma tortura. A sensação era de desrespeito e abandono total.


Alguns idosos passaram mal; outras pessoas desmaiaram diante do calor e do cansaço. Muitos, sem outra opção, acabaram fazendo suas necessidades ali mesmo. O ar pesado se misturava com o medo,  e a uma profunda sensação de impotência. Era como se tivéssemos sido silenciados e torturados, deixados à própria sorte. Então já no final da tarde veio um deles, dizendo com ironia que “agora vocês vão para outro lugar. Lá tem comida, tem uma hospedagem cinco estrela”.


A chegada: "O Campo de concentração"

Após horas presos dentro dos ônibus, já no final do dia, fomos finalmente levados para a Academia da Polícia Federal. Para muitos, a sensação era a de estar entrando em algo que lembrava um campo de concentração improvisado.


Ninguém podia avisar a família.

Não recebíamos qualquer informação sobre o que estava acontecendo.

Estávamos ali, junto a milhares de pessoas, sem estrutura básica para nos acomodar.


Disseram que iriam fazer uma triagem com nós, para sermos liberados, que teriamos que assinar um documento pra nunca mais na vida fazermos manifestação então poderíamos ir embora. Mas isso não aconteceu, era tudo uma grande mentira e armação pois nessa triagem já havia um depoimento pronto criado por eles , nos acusando de terrorista, golpista etc... Nós eramos obrigados a assinar esse depoimento sobre tortura e coerção.Formos acusados, calúniados, desrespeitos e presos injustamente até hoje sem uma armas ou granada em mãos, tudo que fizemos foi apenas protesta pelo um Brasil melhor com oração, louvor, Bíblia, terço e a bandeira esse foi nosso crime.


O momento da prisão

Quando o dia começou a clarear (10 de janeiro), a verdade finalmente nos atingiu: nós não voltaríamos para casa, e sim para o presídio. Foi um choque para nós, estavamos perplexo com a situação de corvadia e abuso da autoridades. Que nós e que pagamos o salário deles com nossos suor que irônico.

Então os homens foram enviados para o presídio da Papuda, enquanto as mulheres eram direcionadas para o presídio da Colmeia. Aquilo parecia um pesadelo do qual ninguém conseguia acordar.


Entramos em ônibus prisionais como se fôssemos criminosos perigosos — nós, que em nossa maioria nunca tínhamos sequer pisado em uma delegacia. A sensação de indignidade e abandono era esmagadora. Alguns choravam outros estavam apavorados uns choravam baixinho, outros soluçavam abertamente. Havia também aqueles que, em silêncio absoluto, olhavam para o nada, completamente perdidos, tentando dar sentido a algo que parecia impossível de compreender.


A chegada ao presídio 


E então começou um novo capítulo de tortura e medo. A incerteza do que viria, o medo que apertava o peito, a fome, o frio que atravessava a pele e a humilhação constante tornaram-se companheiros de todos naquele trajeto. Era como se a dignidade de cada um tava sendo arrancada pouco a pouco. Um pesadelo para nós e para nossas famílias, que durar até hoje. 


Tudo isso apenas porque carregávamos uma bandeira do Brasil, uma Bíblia, um terço ou porque queriamos um Brasil melhor para os nossos filhos e netos, com manifestações de forma pacífica, exercendo o nosso direito de liberdade de expressão, que está garantido pela nossa constituição brasileira. No entanto estávamos sendos submetidos a essa situação, nada justificava o que estávamos vivendo. Nada.


Hoje ainda sofremos com a perseguição, muitos ainda continuam nos presídios, outros livres em aspas, pois continuam presos. Com traumas e sequelas, com as nossas famílias destruturadas financeiramente e espiritualmente, com sequelas na nossa saúde física e mental.